Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2018

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Acordei com indigestão



O sol hoje respirava solitário. O vento gelado parecia enrijecer antes os ânimos do que a pele. Como espinho alojado nos pés, senti a impotência de quem anseia por mudança, mas se vê com as mãos atadas olhando a decadência dos que não foram selecionados. Fui ao encontro do aconchego das minhas leituras e, num súbito, as letras saltaram-me aos olhos, perfurando a retina como quem acusa já ter antecipado. Como quem escuta a história recontada, mudando apenas para presente o que era ruga do passado.

Hoje acordei com a sensação indigesta de quem está incomodada. De quem está com a paciência fadigada. Sonhei com a liberdade e acordei com a inflação. Atuei como cidadã e fui respondida com opressão. Os martírios dos revólveres estruturam a chacina dos diferentes, enternecendo quem escuta com o discurso de que somos baderneiros e oponentes.

Minhas náuseas gritavam pela literatura como quem implora a penitência com chibatadas de esclarecimento. Revi minha aula com um vídeo da Marielle que me fez sangrar ainda mais por dentro. As horas passavam, e a densidade das distrações eram contrárias à tolerância. Passeei pelo Teto de Vidro de Steil, comunguei a complexidade de Morin e ainda visitei a antropofagia de Suely como quem apela pela água da sanga.

Minha lucidez se exasperou a golpes violentos no estômago. A guerra está colocada nessa sociedade em que não há verdade para explicar as alianças. As reformas desacatam a realidade, fazendo do trabalhador um hiato de morte em vida. Não nos consultam e ainda usam as pesquisas para burlar a opinião pública com a mídia.

A indigestão parece aumentar à medida que a consciência toma conta da fronte. São verdadeiros vômitos na cara da sociedade quando defendem a milícia sobrepujada, mascarando com promessas o que apenas acelera a fome. Gasolina pela hora da morte, e as greves recrudescendo o desgosto. Vejo um Brasil indiciado pelas más escolhas, com um dedo apontado sobre si como quem começa a perceber que a verdade sempre vem à tona.

As guerras deflagradas são barbáries suicidas que dilaceram os próprios membros. A desvirtude jogada pela prece angaria os sentidos para continuar alimentando com veneno seus próprios juramentos. Vejo o fim perverso que cadeiras numeradas são capazes de provocar, incidindo sobre o ímpio a maneira menos transparente que um discurso hipocondríaco e solícito aos remanescentes está habilitado a propagar.

Acordei com indigestão e piorou ao sair para a rua. O mesmo sol que queimava meu rosto limpo e de cor viva orquestrava a visualidade para os invisíveis que espreitam um cantinho que bata menos vendo na esquina. Me doem as pernas a impotência e me provoca crises a indiferença. Que parem os postos, as luzes e as manobras, pois de imposta e retrógrada já basta nossa presidência.

THIANE ÁVILA.












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